quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A economia da verdade - CRÓNICAS DO CM


    Mais um crónica, esta do CM, de domingo. não deixem de ler e de deixar a vossa opinião.

"Eu tenho a convicção de que nós mudamos muito pouco ao longo da vida, e que aquilo que somos ao 40 não é assim tão diferente daquilo que já éramos aos 20. Mas quando olho para trás percebo que há uma coisa que a ex-periência realmente me ensinou: numa relação, a sinceridade absoluta pode ser quase tão perigosa quanto a mentira compulsiva.
Há 15 anos, eu era um fundamentalista da verdade. Achava que duas pessoas que se amavam deviam contar tudo uma à outra, e um pouco menos que tudo era já muito pouco. Essa partilha de uma verdade em estado puro (como se tal existisse) fazia parte da minha ideia idílica de "entrega total", que eu seguia religiosamente. Até que um dia percebi - à custa de muito sofrimento pessoal - que revelar o mais íntimo de nós à pessoa que amamos é uma decisão que se presta a terríveis equívocos e pode causar desnecessárias dores.
Quando éramos ainda jovens namorados, eu acusava a Teresa de estar dividida em quatro: havia o que ela dizia, o que ela queria, o que ela sentia e o que ela pensava, e essas coisas raramente coincidiam umas com as outras. Compreendi mais tarde que não é só a Teresa. Somos nós todos. E insistir em verbalizar o nosso caos interior é um exercício demasiado perigoso.
Atenção: não confundam as minhas palavras com qualquer espécie de apologia da mentira. Eu sou alérgico à mentira (incluindo aquelas mentiras piedosas com que por vezes se tenta despachar os filhos) e não tenho qualquer talento para a praticar. Mas percebi a importância daquilo a que hoje chamo ‘economia da verdade': há uma linha onde demasiada sinceridade é já crueldade, onde contar todas as nossas dúvidas, as nossas indecisões ou os nossos desejos é provocar no outro um sofrimento desnecessário, na medida em que aquilo que para nós é apenas uma insignificância ou uma perturbação momentânea pode adquirir no coração do outro um peso desmesurado.
São Paulo dizia da nossa relação com Deus que hoje vemos como que por um espelho e que um dia veremos face a face. Não sei se esse dia irá alguma vez chegar, mas sei que é ingenuidade pensar que conseguimos quebrar todos os espelhos que nos rodeiam, pensando que o amor só será verdadeiro se for cristalino. Não é assim. O verdadeiro amor é aquele que aprende a viver com a sua própria fragilidade e que poupa o outro àquilo que ele não precisa de saber."

Por:João Miguel Tavares, Escritor (jmtavares@cmjornal.pt)

3 comentários:

paula MARIANA disse...

Adorei esta crónica Sónia e o último parágrafo não podia estar mais certo...
Numa relação para haver sucesso tem de haver respeito, fidelidade e amor. O resto é insignificante e para uma relação durar nem tudo temos de dizer há coisas que sabemos podem ferir, magoar infinitamente a outra e porque não poupá-la a essas coisas?
Todos temos um jardim secreto e que sempre deve permanecer nosso e saber geri-lo é aí que está uma nossa grande virtude...

beijinhos!!

Tixa disse...

É um belo texto, sim senhora!
Beijinhos

lívia e lucia disse...

Estava babando com tantas delícias o seu blog está recheado de gostosuras adorei Sónia voltarei sempre, ótima texto bjs!